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Última Paragem

O blog do bicho do mato

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Última Paragem

24
Jan23

Denzel Washington e Madame Bovary

Maria J. Lourinho

Nomes e mais nomes: cisgénero, transgénero, não-binário, género neutro. E depois poliamoroso, demissexual, arromântico, flúido, e ainda uma infinidade de outras categorias, quer de género quer sexuais, são hoje termos que nos entram pelos sentidos como uma emergência, quando não como a temática mais importante da humanidade.

Foi no início dos anos 1980 do século passado que Margaret Thatcher começou a destruir a sociedade tal como ela se tinha construído no pós-guerra, com a afirmação de um pensamento diverso e mais egoísta, perfeitamente ilustrado por esta sua bem conhecida frase:

 Who is society? There is no such thing! There are individual men and women and there are families

Hoje podemos dizer que o seu pensamento vingou nas sociedades liberais, mas nem ela conseguiu acertar em cheio, pois só previu homens e mulheres. E nem lhe passava pela cabeça o lugar central que a identidade viria a assumir e como seria grave não a ter em atenção.

Se lhe falassem em questões de género, teria, certamente, respondido de novo:

There is no such thing!

Mas há, sem dúvida. O drama é que estas questões estão a ser levadas a extremos que as pessoas comuns não entendem e, por isso mesmo, acabarão por rejeitar com veemência.

Abordar estes temas, explicar, e deixar que, aos poucos, as pessoas os entendam e assimilem, é uma coisa, (e todos temos a ganhar com o reconhecimento duma sociedade mais diversa), impor e cancelar é outra bem diferente, própria de sociedades totalitárias de má memória.

E quando uma companhia de teatro, como o Teatro do Vão, aceita que andou mal, e se penaliza e concede que um papel de transsexual só pode ser representado por alguém transsexual devia ser proibida de fazer teatro, por não ter percebido o elementar - teatro é representação, a arte, de uma maneira geral, é representação. E se não percebeu isso, não percebeu nada. Se, em 2023, ainda não percebeu (passe o exagero) que Denzel Washington podia fazer o papel de Madame Bovary desde que o fizesse bem, insisto, ainda não percebeu nada - nem de representação,  nem de arte, nem do mundo em que vive. 

Só se agarra ao ar do tempo. E mal.

 

07
Jul21

Velha (Alte Frau)

Maria J. Lourinho

Alte Frau.jpg

No seu livro de crónicas e ensaios Sinta-se Livre, Zadie Smith escreve sobre a representação da mulher na pintura e escolhe este trabalho de Balthasar Denner (Alemanha, 1685 – 1749), intitulado Alte Frau (Velha), e cito:

...”Não é como outros retratos no seu género. Não é o retrato reconfortante de uma avozinha. E também não é a imagem simbólica e animadora da sabedoria ou, pelo menos, se ela é, de facto, uma das menos enganadas, não parece que a forma de conhecimento que adquiriu lhe tenha trazido muita paz ou satisfação, como esperamos que a sabedoria traga.

Ela não tem um ar pacífico ou satisfeito. Aquela boquinha cerrada! Ela não olha com um optimismo paciente...e também não é grotesca ou cómica. Não. Ela, simplesmente, é.”

Assim deveríamos envelhecer todas, penso com os meus botões, simplesmente SENDO.

Mas, também, cada uma de nós devia ter direito ao seu Denner para registo de cada ruga numa obra-prima imortal. Porquê?

Ora, ora, porque, depois do tanto que são as nossas vidas, nós merecemos.

Imagem - Alte Drau, Balthasar Denner, Kunsthistorisches Museum, Viena

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