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Última Paragem

O blog do bicho do mato

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Última Paragem

07
Fev23

Elas

Maria J. Lourinho

Calhou olhar pela janela e vê-las.

Duas mulheres ainda novas estão paradas a conversar; carregam casacos, malas e lancheiras. Por várias vezes, a linguagem corporal indica que se vão separar, mas não, ainda há coisas para dizer.

Por fim, envolvem-se num longo e genuíno abraço.

Sei, exactamente, o que estão a dizer:

Gostei tanto de te encontrar! Também eu! Havemos de marcar um cafezinho para pôr a escrita em dia com mais tempo. Isso! que boa ideia!  Liga-me! Vou ligar, sim!

 

Não o farão. Não têm tempo.

 

05
Jan23

Mulher rica, mulher pobre

Maria J. Lourinho

Joana estudou aos tropeções no Liceu Francês em Lisboa. Ao terminá-lo, emigrou para estudar em França numa escola profissional privada. As aulas começaram em Outubro e Joana tem um um estúdio para morar sozinha. Ao fim de um mês, teve saudades da família (e dos amigos), apanhou um avião e veio passar 3 dias em casa.

Marina não acabou o secundário. Teve um filho, que deixou com a mãe, e emigrou para a Bélgica, onde vive o pai. Arranjou trabalho a embalar produtos vendidos online. Ainda não tem casa e não conseguiu vir ver o filho no Natal com medo de que, sendo tempo de lhe renovarem o contrato de trabalho, a sua ausência pudesse prejudicá-la.

Sabemos que Portugal é um país muito desigual, cada vez mais desigual.

Para as mulheres creio que é sempre pior.

04
Dez22

Olive

Maria J. Lourinho

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Se alguma mulher me disser que não encontra em si um grama da chata da Olive Kitteridge, eu digo logo que não acredito.

…”Henry – disse. - Eles fazem anos de casados hoje. Dão-se bem, mas ela é burra, tal como eu pensava. Estão ambos a fazer terapia. - Hesitou e olhou em volta. - Não te preocupes com isso, Henry. Na terapia, a culpa é sempre da mãe. Tenho a certeza que sais de lá incólume e a cheirar a água de rosas.” 

Ed. Alfaguara

 

16
Nov22

O Prémio de Saramago

Maria J. Lourinho

Comemorando-se o centenário de Saramago, a atribuição do prémio com o seu nome tem tido mais publicidade dos mcs. Comecei a reparar nas imagens dos antigos laureados e só via homens. Fui confirmar e aí está: 12 premiados e só duas são mulheres, ambas brasileiras. Pergunto-me: não haverá escritoras mulheres que preencham os critérios para "a coisa" ser um pouco mais paritária? Se calhar, não, que sei eu?.

Mas lá que é estranho, é!

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11
Jun21

Helena

Maria J. Lourinho

Eu tenho uma amiga que se chama Helena.

Nunca a vi, mas há anos que nos acompanhamos nas redes sociais.

Também praticamente não sei nada dela; sei que vive entre dois países, que gosta de livros (como eu) que gosta de viajar (como eu), que tem pelo menos uma neta que adora e acompanha quanto pode.

A Helena gosta do que eu escrevo e incita-me a fazê-lo. Há poucos meses, a Helena descreveu-me com um sentido de observação e uma generosidade de que, creio, mais ninguém foi capaz até hoje. É perspicaz, inteligente, ponderada, tolerante. Quando eu não sou ponderada e tolerante, a Helena não gosta, mas releva porque é minha amiga.

É maravilhoso saber que, para lá do monitor está alguém por quem nutrimos uma genuína amizade e que esta é retribuída.

Se for alguém que não conhecemos, é quase mágico.

A Helena faz hoje anos. Não sei quantos, mas não faz mal. Eu quero que ela faça muitos e que permaneça assim comigo, e eu com ela.

Parabéns, Helena, e obrigada pela amizade. E por estar aí, onde quer que seja.

08
Mar21

Mulheres

Maria J. Lourinho

Esta é uma história verdadeira em que apenas os nomes foram alterados.

Josefa, Esmeralda, Ilda, Maria e Conceição, todas viveram nos anos de 1940. Mais velhas ou mais novas, a nenhuma foi estranho o rescaldo da Segunda Guerra Mundial e o salazarismo, com o seu cortejo de racionamentos, medos, carências e sacrifícios, num tempo em que, sem qualquer vislumbre de protecçao social, as pessoas estavam entregues a si próprias.

Josefa e Esmeralda eram irmãs, e Conceição era cunhada de Josefa.

A filha mais velha de Josefa, Joana, casou com Xavier, que era filho de Maria e irmão de Ilda.

Quando Xavier adoeceu com tuberculose, o jovem casal teve de deixar uma promissora vida na capital e de regressar às origens.

Doença e desemprego eram, e são ainda, causas maiores de pobreza, humilhação e sofrimento, caso não se tenha uma rede de apoio para amortecer a queda.

A rede física e psicológica deste casal foi formada pelas cinco mulheres inicialmente nomeadas.

Era preciso comprar penicilina, novo e caríssimo fármaco, para salvar Xavier.

Para isso, e sem hesitações, Ilda, a irmã de Xavier, vendeu todo o seu ouro e Maria, mãe de Xavier, vendeu não só o ouro, mas também a máquina de costura, um bem caro e precioso para as mulheres da época, quantas vezes comprado com muitas e sacrificadas prestações.

A mãe de Joana, mandava tudo o que podia para a alimentação e a tia Conceição, dona da casa que o casal arrendava, pagava do seu bolso a renda da casa ao próprio marido, sem que este desconfiasse da tramoia.

Quando Xavier melhorou mas ainda não tinha trabalho, e saía um pouco ao domingo à tarde, muitas vezes a tia Esmeralda, subrepticiamente metia-lhe no bolso uma nota de 20 escudos para as suas necessidades – tabaco, café e jornal, as necessidades mínimas de um homem naquele tempo.

Um verdadeiro complô de mulheres tomou conta do casal e salvou-o, deixando os homens nas suas vidas e na sua ignorância. Ou, pelo menos, elas assim acreditavam.

 

8 de Março é o Dia Internacional da Mulher.

Este ano, celebro-o homenageando estas minhas antepassadas, mulheres de fibra, generosas e lutadoras de que muito me orgulho.

 

 

18
Fev21

Dona Antónia (Short story)

Maria J. Lourinho

A minha mãe referia-se-lhe apenas por Antónia. Falando comigo, chamava-lhe Dona Antónia.

Esta era a forma que ela tinha de me mostrar o seu desprezo por certas formas de vida, mas também a necessidade de respeitar todos.

Dona Antónia vivia na nossa rua, no tempo em que o casco velho da cidade era a totalidade do mundo para os seus habitantes.

Era na rua que os rapazes brincavam aos polícias e ladrões, aos cowboys, ou jogavam hóquei em patins sem patins, apenas com sticks manhosos e uma bola pequenina.

As meninas não participavam nesses brincadeiras. Ficavam à janela olhando os jogos dos rapazes, cumprimentando quem passava (sempre os mesmos) e apreciando o incansável trabalho das formigas por baixo da janela de peito do rés-do-chão.

Dona Antónia, que ali vivia sozinha, era recatada mas, por vezes, ao final da tarde, com a lida da casa feita e arrumada, também assomava à janela e por ali se deixava ficar um bom bocado, numa lassidão sensual e bem tratada.

O cabelo, a começar a ficar grisalho, apresentava-se sempre impecavelmente apanhado numa “banana”, os lábios levavam um ligeiro toque carmesim. Nas poucas vezes que saía, Dona Antónia usava, invariavelmente, saia travada, blusa ou casaquinho, e sapatos de meio salto. Na mão, apenas as chaves e o porta moedas, como quem pensa – não me demoro. E não se demorava.

Presumo, hoje, tantos anos passados, que nunca saberia a que horas chegava, ou sequer se chegava, o lavrador alto, de chapéu e bota rasa, que metia a chave à porta com indisfarçável ar de dono da casa e de todo o seu recheio, pois que tudo ali era pago e mantido por ele.

As bruxas do burgo velho, iguais às que existem em toda a parte e gostam de sair de noite, diziam que o cavalheiro bem apessoado que alugava um quarto na casa ao lado fazia umas surtidas nocturnas que terminavam a deslizar para dentro da porta da dona Antónia.

É certo que em todas as vidas há bocados duros de roer e outros de puro prazer, mas gozar assim com o poderoso macho latifundiário? Não, não acredito. Nem nunca acreditei em bruxas.

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