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Última Paragem

O blog do bicho do mato

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Última Paragem

05
Fev24

A montanha Fosse

Maria J. Lourinho

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Jon Fosse foi Nobel da Literatura no ano passado. É norueguês.

São 300 páginas de uma toada sobre a vida, o passar da vida, o mar, o fiorde, o frio, a neve, a solidão, o alcoolismo, a arte, o amor, a amizade, as lutas individuais, Deus, a morte.

A toada às vezes é bela, ás vezes é mística, quase sempre é melancólica, e muitas vezes é chata de tão repetitiva.

É preciso ter paciência, sim, e não foi fácil a leitura. 

Dentro dela, eu própria me senti, frequentemente, às voltas no fiorde, sobre a neve e com frio.

No fim, não fiquei convencida de ter lido um livro inesquecível, mas ficou a satisfação de ter chegado ao fim, ainda que muito cansada e com falta de oxigénio, como se tivesse conseguido escalar uma enorme montanha. Nevada, é claro.

19
Dez23

Inveja

Maria J. Lourinho

Fotografia0191.jpg

A foto é minha mas pode levar

...Estava um dia de Janeiro luminoso, o sol brilhava nas árvores de folha perene, o ar era límpido como um sino; era uma luz de último grito, como às vezes ocorre num meio-dia de Janeiro; não uma luz intensa , mas pálida e purificante como sumo de limão.

Lorrie Moore, Uma Porta nas Escadas

Ai o que eu gostava de ter escrito isto!!!

 

12
Dez23

Uma Porta nas Escadas

Maria J. Lourinho

2023-12-11 19.38.49.jpg

Há muito que procurava este livro, que estava sempre “não disponível”. Até agora.

Maravilhosamente bem escrito, conta-nos sobre um ano de vida de uma rapariga americana, oriunda de um meio rural, que vai para a cidade (Troy no Michigan) frequentar a universidade, cerca de um ano depois do 11 de Setembro.

Nessa sua passagem para a idade adulta, apetece perguntar quantas perdas se podem suportar em pouco tempo.

Não há finais claros para as relações emocionais que ela vai estabelecendo; não sabemos o que acontece a quem entra, e depois sai, da vida de Tassie Keltjin. Pode ser um pouco frustrante, não estamos habituados a isso na literatura, mas não é o que acontece também tantas vezes nas nossas vidas?

Na escrita de Lorrie Moore, as descrições de fauna e flora, que tantas vezes me parecem pouco entusiasmantes, se não mesmo chatas, são coloridas, vibrantes e até aromáticas.

O humor (às vezes negro), insinua-se,  é subtil, e a América está lá toda:pobres e ricos, racismo, terrorismo, guerra do Afeganistão, e estranhas formas de amar e cuidar, mas também oportunidades em aberto.

A prosa é magistral.

Não me arrependo da espera pelo livro. Ao contrário.

O livro é de 2009, nas Edições Relógio d'Água e de 2010.

15
Set23

Vínculos Ferozes ou a materna doçura/acidez

Maria J. Lourinho

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Quantas de nós tivemos, temos, ou fomos educada por uma mãe autoritária, ansiosa, preconceituosa, muitas vezes infeliz e também muitas vezes agreste na relação com as suas filhas (mas não com os seus filhos homens), que nos vai moldadndo a personalidade e o futuro.

Uma mãe que dispara à queima roupa, por exemplo,: estás gorda, ou, mais docemente, tens o rabinho maior, não gosto nada dessa roupa, a saia está curta demais, esse penteado fica-te mal, estudar fora para quê? Aqui não serve à menina?

E, no meio de isto tudo, há um amor incondicional de ambas as partes. Indestrutível.

São Vínculos Ferozes.

E, Vínculos Ferozes, é precisamente o título deste livro de Vivian Gormick, judia americana, nascida em Nova Iorque em 1935.

Escreveu ensaios, memórias romances, foi professora e jornalista e é um nome incontornável do feminismo.

Escreveu este livro em 1987, sem grande sucesso. Nele, desfia memórias do seu crescimento no Bronx, onde nasceu, e da sua vida com a mãe, enquanto ambas, uma madura e outra maduríssima, uma viúva e outra divorciada, fazem caminhadas pelas ruas de Manhattan. Os comportamentos não se alteraram com o passar dos anos,  de tal modo que a autora chega a escrever:

“Uma de nós vai morrer deste vínculo”

O livro foi recentemente descoberto pelo movimento MeToo e alcançou grande êxito.

Depois disso, Vivian Gormick ficou rica, e numa entrevista ao jornal brasileiro O Globo, afirma:

- Eu preciso te contar: mais do que as reedições e todo este fuzuê, o que me tira mesmo do sério é ter, a esta altura da vida, ficado rica. Como sempre vivi na falta dele, não sei o que fazer com dinheiro. É muito tarde, aos 88 anos, pra mudar meu estilo de vida, mas já pego táxi quando chove e não preciso mais escolher o prato mais barato do cardápio.

E eu não preciso de saber física quântica ou discutir filosofia, embora gostasse, porque, na verdade, são as pessoas assim, com quem convivo nos livros, que fazem os meus dias.

 

10
Set23

Limpa

Maria J. Lourinho

Limpa.jpgDizem-nos que a luta de classes acabou, que somos todos "colaboradores" uns dos outros. Nada mais falso.

Ela está viva, sem gritos, punhos erguidos ou pancadaria (excepto em França, claro), mas viva.

É surda porque vive e cresce em surdina, parece mansa mas tem a raiva de sempre, e pode ser agressiva. este livro aí está para contar tudo isso. 

E recomenda-se.

04
Jul23

Interrogação minha mas de que nunca me tinha lembrado

Maria J. Lourinho

É para isso que (também) servem livros e escritores - para nos dizerem e interrogarem sobre nós mesmos.

"Como será que estamos presentes na existência dos outros, na sua memória, na sua maneira de ser, mesmo nos seus actos?"

Annie Ernaux em Memória de Raparig

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A descrição dos seus anos de passagem, de que se ocupa esta obra, vividos dez anos antes de Maio 68, e, portanto, da queda de todos os interditos, sobretudo os sexuais, é de um desassombro tão completo e corajoso que pode, em algum momento, trazer desconforto ao leitor, de tal modo nos sentimos a espreitar pelo buraco da fechadura, e a entrar em locais para onde, geralmente, não somos convidados – não tanto no corpo da rapariga, mas sobretudo na sua alma.

Crescer nunca foi fácil, muito menos para as mulheres no final dos anos 1950 e princípio dos de 1960; por isso lê-lo incomoda, mas a escrita delicia.

E cito a citação que Annie Ernaux faz de Nitetzsche que, por fim, tudo resume:

- Temos a Arte para não morrermos de Verdade.

 

30
Jun23

Contos Escolhidos – Carson McCullers

Maria J. Lourinho

 

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Regresso ao passado, a uma escritora singular, que escreve sobre um tempo e um lugar singulares ( os estados do Sul dos EUA na primeira metade do século XX).

Um mundo que já não existe mas a que é bom regressar, uma escrita suave e envolvente, sem arestas em que nos possamos magoar. Os personagens estão ali, olhados de fora e de dentro, melancólicos, impotentes, débeis e sofredores, confusos, imperfeitos.

Foi bom regressar a Carson McCullers com estes seus contos curtos e perfeitos.

Edições Relógio D'Água

14
Jun23

Belos Cavalos

Maria J. Lourinho

2023-06-14 11.45.57.jpgEstava eu a ler as últimas páginas deste livro quando li a notícia da morte do seu autor, ontem, perto dos 90 anos.

Um homem estranho, um escritor fora dos nossos hábitos. A leitura não é fácil nem prazeirosa, mas quem se atrever não se desilude.

Sobre ele escreve hoje Isabel Luvas no Público:

"Cormac McCarthy (1933-2023): o autor que esculpiu o apocalipse universal a partir do mito americano
O protagonista de Belos Cavalos (Relógio D’Água, 2010) carregava a garra de uma literatura feita de parábolas nascidas nesse lugar de fronteira. Apocalíptica, selvagem, crua, criativamente ditada por um improviso que o próprio autor comparou ao usado pelos músicos de jazz, a literatura tal como Cormac McCarthy a entendia e a escrevia correu de forma obsessiva através de qualquer coisa indomável, de um sentido do caos humano."

09
Mai23

Lucy à beira-mar

Maria J. Lourinho

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Continuando no tema da pandemia, puxado ontem, devo dizer que acho extraordinária a maneira como este livro me tocou.

Numa escrita sincopada e lisa, quase no osso, Elizabeth Strout leva-nos de novo para os primeiros tempos da pandemia e do isolamento; tão perto e tão longe. Nessa narrativa “como quem não quer a coisa”, nada fica esquecido: o amor, os casamentos, os ex-casamentos, a relação com os filhos adultos e a família, os amigos distantes, os novos encontros, os vizinhos, as grandes e pequenas irritações com o parceiro, as grandes e pequenas mudanças dentro e fora de nós, a morte, o medo, o assalto ao Capitólio, O Black Lives Matter, a pobreza e os que foram deixados para trás -“deploráveis” para Hilary Clinton, mas realmente "os invisíveis" - os apoiantes de Trump e a sua raiva.

É um livro político, no sentido mais lato do termo, de ricos e pobres na América, mas também lá está toda a nossa fragilidade e grandeza, expostas de um modo tão simples que até dói, ou melhor, emociona.

Lucy à Beira-MaR, Elizabeth Strout

Ed Penguin

Tradução de Tânia Ganho

04
Mai23

Leitura rápida

Maria J. Lourinho

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Amos Oz é um dos meus escritores, e tinha muita razão no que aqui dizia.

As pilhas de livros lidos em pouco tempo, e devidamente fotografadas, nunca me entusiasmaram, ao contrário, desconfio. É que "o mundo não pode ser descoberto numa leitura rápida".

Aprendemos isso com o passar dos anos. E dos livros.

PS: foto do Instagram

19
Abr23

Um post do Instagram

Maria J. Lourinho

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Vou deixar sair a desmancha-prazeres que há em mim e que anda a gritar comigo para lhe abrir a porta.
Toda a gente adora este livro, eu acho-o banal.
Li Dickens e vi o filme Filomena, talvez por isso este livro não me traz nada de novo.
Quanto à bondade, há muito que ela não faz boa literatura, como o belo não faz, necessariamente, boa arte.
Ser "do contra" é cada vez mais difícil, mas acho que é coisa que vai morrer comigo.

Mania minha: onde houver unanimidade de largo expectro como os antibióticos, desconfio, e tenho de ir espreitar.

Às vezes engrosso o coro, outras desafino. É o caso!

Ps: este post, com pequenas alterações, foi publicado inicialmente no Instagram.

06
Fev23

A Vida Brinca Comigo, David Grossman

Maria J. Lourinho

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David Grossman é actualmente um dos meus autores favoritos.

Israelita, pacifista, defensor dos dois Estados, profundamente humano, brilhante escritor.

Aqui nos conta, no essencial, uma historia verdadeira, embora tivesse tido autorização para fantasiar. É a história de Vera, (na vida real Eva),judia croata, que passa 3 anos num campo de “reedução” de Tito, na Jugoslávia, acusada de ser estalinista.

Estes 3 anos, e as suas consequências nas vidas das personagens, são narrados sem dó nem piedade, e Grossman leva-nos pela mão ao encontro do mais puro e inexplicável amor, aquele que exclui tudo o resto, e da mais refinada malvadez, a que exclui qualquer resquício de humanidade.

Vera e a sua filha Nina são personagens inesquecíveis. Pelos seus corpos e mentes passou o pior do mundo, passaram também os anos, mas elas, no fundo, nunca desistiram da redenção.

 

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