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Última Paragem

O blog do bicho do mato

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Última Paragem

29
Jun21

Coisas de que me lembro, e não sou do governo

Maria J. Lourinho

Acho extraordinário que, em mais de ano e meio de pandemia, governo e DGS em nenhum momento tenham tomado a iniciativa de induzir comportamentos e informação através de apelativos anúncios de tv.

No memento actual, em que as pessoas de meia idade agendam a vacina e não aparecem, e em que os ainda mais jovens estão fartos, querem viver, e se borrifam para as regras cada vez em maior número, não seria de fazer uma publicidade/apelo/pedagogia, com um jogador de futebol, um músico, uma apresentadora de tv, um influencer do Instagram, um famoso da casa de não sei quê, apelando à vacinação e à comparência, uma vez agendada, para que não se percam doses de vacina?

Será caro? Deve ser. 
Mas mais caro será, certamente, ter pessoas, na força da vida, internadas nos cuidados intensivos ou mesmo mortas.

28
Jun21

Ser morno

Maria J. Lourinho

No seu artigo do Expresso desta semana, Pedro Mexia escreve um muito elogiado texto  sobre o extremar de linguagem e posições políticas, defendendo “os mornos”.

Cito:

A verdade é que, no campo político, vivemos em época de abominação dos “mornos”, tratados como cobardes, vendidos, traidores. Já aqui escrevi sobre alguns autores que nos últimos anos têm recusado a lógica de trincheira, e que receberam a consequente excomunhão ideológica

...

Fala, de seguida, de autores famosos, que foram muito criticados, como Albert Camus e a sua vontade de “não dizer coisas definitivas” ou a Hannah Arendt por “compreender que o demoníaco se pode manifestar através do entorpecimento do juízo, da máquina burocrática, do “obedecer a ordens”. 

E conclui:

...Dir-se-á que não há comparação entre estes casos e os de hoje, porque não estamos na Guerra Civil de Espanha, numa guerra mundial, numa guerra independentista ou em Guerra Fria. Mas se não estamos, se nem isso desculpa o fanatismo, porquê agora, à esquerda e à direita, a linguagem dos cobardes, dos traidores, dos vendidos, do “fazer o jogo de”, lamentável resquício de um século trágico?”

 

Ora, eu que sou admiradora do pensamento e postura do Pedro Mexia, gostava de me sentar com ele e perguntar-lhe:

Não acha que, aí desde os anos 1990, o capitalismo se tornou tão brutal e selvagem que as pessoas deixaram de confiar que, em caso de doença, seriam devidamente tratadas, que teriam boas escolas para os seus filhos, que eles iriam para a universidade se quisessem, que poderiam sempre pagar a renda da casa, que a sua reforma lhes permitiria viver decentemente e pagar os remédios, e que essa descrença, ou dúvida, torna nas pessoas inseguras, irritadas, extremistas, em suma, sementes de fanatismos?

A temperança no sec XXI é, parece-me, apenas companheira de vida de quem está confortável, como o Pedro Mexia - homem, branco, sem filhos, culto, e com formação que o faz desejado em muitos lugares públicos e privados. Muito semelhante aos meus filhos, aliás. Mas, para os outros, ser “morno” é difícil.

25
Jun21

Maravilhas da saúde privada.

Maria J. Lourinho

No dia 19 de Junho, Christian Christensen (americano, prof de jornalismo na universidade de Estocolmo e na Universidade do Texas (em Austin), publicou um post no twitter, em que escrevia:

Há notícias de que, na Suécia, uma empresa privada de saúde (STANGT) forneceu, fraudulentamente, a até 100.000 pessoas, certificados de que não tinham COVID sem que seus testes fossem analisados. Assim, as pessoas que tinham COVID não sabiam e não procuraram atendimento, ou viajaram para o exterior infectadas.

Num comentário a este post, alguém dizia que o mesmo se está a passar no Reino Unido.

Tenhamos medo. Eu tenho muito medo de um mundo assim.

24
Jun21

Lúcia

Maria J. Lourinho

A minha amiga Lúcia, leitora e comentadora fiel, faz hoje anos.

Ao contrário da Helena, de quem falei há poucos dias, conheço a Lúcia quase desde que nasci. Nascemos na mesma terra, os nossos aniversários são coladinhos no calendário e a quantidade de vida vivida também é a mesma. Por isso, desde sempre a Lúcia brincou comigo dizendo - “somos quase gémeas”. E ria.

A Lúcia sempre riu, ou sorriu, bastante. E também desde sempre falou muito. A particularidade para o riso e para a fala é que ela faz tudo isso em triplicado, isto é, com a boca, com os olhos e com as mãos. São uns “faladores” os olhos da Lúcia, e por eles passam todos os sentimentos, sempre bem acompanhados dum gesticular de mãos pequeninas, brancas e delicadas.

Os últimos anos não têm saído bons para a saúde desta minha amiga, mas ela é corajosa, quase estoica, e cavalga qualquer onda que se lhe atravesse no caminho.

Na vida, já nos perdemos, já nos encontrámos. Agora, ela sabe que eu estou aqui e eu também sei onde ela está, para o resto das nossas vidas.

Sendo certo que o facto de nos conhecermos desde crianças ajuda bastante, eu continuo a acreditar no Vinícius que dizia Amigo(a) a gente não faz, Amigo(a), a gente reconhece. E isso faz toda a diferença.

Um grande beijo de parabéns, Lúcia. E muita saúde.

22
Jun21

Na morte da tia (short story)

Maria J. Lourinho

Eram os últimos dias, talvez horas, de vida da tia.

Ana Maria estava sentada junto da cama do hospital e olhava a cabeça branca da velha senhora adormecida; sentia uma enorme serenidade naquela hora de despedida e, por isso mesmo, percebeu que a tinha perdoado.

Aquela tinha sido a tia que a tinha ajudado financeiramente quando foi preciso, mas também a única que a tinha humilhado sempre que lhe foi possível.

Era uma mulher difícil, dada a ódios, ciúmes, excepções entre iguais e neuras.

Apesar dos seus mais de 90 anos, era, desde os vinte, financeiramente independente, amealhou um bom pecúlio e nunca casou. Houve, porém, na vida dela, um eterno amor com um namoro intermitente.

No tempo em que a distância entre o norte e o sul do país era enorme, e no tempo em que as mulheres não saíam de casa dos pais senão para a igreja no dia do casamento, a tia tinha, aos vinte e poucos anos, invertidos os pontos cardeais da sua vida e rumado à terra desse grande amor. Dele, murmurava-se-lhe o nome, mas pouco mais se sabia.

Meses depois, voltou. Sozinha. Nunca mais saiu de casa dos pais, mas o namoro intermitente durou quase toda a vida. Ele aparecia, estavam felizes alguns dias, e voltava a partir. Passavam-se anos sem notícias, até que ele reaparecia. Voltava sempre, partia sempre, e também ele nunca casou.

Que se passaria naquela relação, era a grande interrogação da família. A tia nada dizia mas ficava zangada durante meses.

Já perto dos noventa anos, um dia disse.

-Sabes, Ana Maria, tive de ir ao hospital fazer uma raspagem. É que eu sou virgem e desenvolvi uma infecção “lá atrás”.

Inevitavelmente, Ana Maria pensou que o sexo, ou melhor, a falta dele, deve ter tido um papel importante naquele insucedido namoro, e lembrou-se do maravilhoso romance de Ian McEwam, Na Praia de Chesil, (2007) em cuja badana se lê: “...uma história de vidas transformadas por um gesto não feito ou uma palavra não dita.”

Depois da morte da tia, Ana Maria soube que havia um testamento. Nele, a parte de leão ia para uma outra sobrinha e para Ana Maria ficava uma pequena casa e uma pulseira de ouro de que ela gostava muito quando ainda era menina.

Mal tomou posse do novo património, Ana Maria vendeu a casa pelo primeiro preço que lhe ofereceram. Depois vendeu a pulseira de que já não gostava e comprou um anel de que gostava.

Ao sair da ourivesaria, com a mesma serenidade que sentiu à beira da cama da moribunda, Ana Maria percebeu que, se já tinha enterrado a tia, tinha agora acabado de cremar a humilhação tantas vezes sentida.

Sorriu, sacudiu o cabelo, e pisou firme rumo a casa, sentindo que, de alguma maneira, também ela era uma sobrevivente. Não o somos todos, afinal?

18
Jun21

Sentidos

Maria J. Lourinho

Fui ao Corte Inglés. Habitualmente, ao passar na zona da perfumaria, sinto um certo enjoo com aquela mistura de aromas. Hoje, pelo contrário, percebi que tinha saudades, mais uma vez, da vida como ela é.

Subrepticiamente, baixei a cabeça, desviei a máscara, inspirei profundamente, e aconteceu: um esplendoroso e aromático fogo de artifício na minha pituitária.

O chamamento dos sentidos é muito maior que o medo.

16
Jun21

Presunção e água benta, cada um toma a que quer

Maria J. Lourinho

"Que poeta, que escritor não gostaria de atribuir o pouco efeito que produz no espaço público (mesmo quando ganha um prémio importante e cheio de prestígio) a uma operação consciente de silenciamento? Mas converter o silêncio em silenciamento é muito precipitado e não tem em conta o lugar que as coisas da poesia ocupam. Seria um bom sinal que houvesse de facto silenciamento. Mas tenho a certeza que não. Lutar contra o silenciamento seria um tarefa mobilizadora, uma batalha onde se perfilam hostes amigas e inimigas; lutar contra o silêncio é muito mais difícil, é uma luta cega."

"Livro de recitações"

António Guerreiro, Público 11/6/2021

Isto foi escrito a propósito da pouca divulgação do prémio de poesia Reina Sofia atribuído a Ana Luísa Amaral, e como análise a um artigo de Isabel Pires de Lima sobre o assunto.

As coisas da cultura cada vez têm menos espaço em jornais e televisões, mas isso tem que ver com o "santo" mercado e não com censura. Acho mesmo muito estúpido que a Isabel Pires de Lima entre nestas parvoíces da mania da perseguição.

Afinal, há ex-ministros tão curtinhos de vistas e interpretação como a malta do Facebook que, mal lhes desaparece um post acha logo que está a ser algo de censura.

Vistas bem as coisas, estão todos ao mesmo nível, quer nas vistas curtas, quer na importância que se atribuem.

 

 

 

15
Jun21

Confusa com as marquises

Maria J. Lourinho

Nós, os portugueses urbanos, no que toca à marquise, dividimo-nos em dois grupos de tamanho muito desigual.

Os pobres têm, e gostam, da marquise; os ricos abominam marquises (aqui, sobre pobres e ricos, simplifico, claro)

Um pobre sem marquise, para os outros pobres, é um idiota metido a besta que desperdiça espaço que está a pagar ao banco.

Um rico com marquise, para os outros ricos, é um traidor e um possidónio.

Destes, os mais conhecidos são Cavaco Silva e Cristiano Ronaldo.

Se a marquise do primeiro, aos olhos dos pobres, era apenas inócua e igualitária, a do Cristiano é uma questão de direito inalienável do proprietário que, por esforço e talento, nasceu pobre e ficou rico.

Logo, diz o pobre, não se bole com o nosso menino, tá? Deixe tar a marquise que não incomoda ninguém e vocês têm é inveja dos diamantes na orelha, dos carros, das casas, do rabo postiço da Georgina e da marquise 360°.

Os ricos acham-no um possidónio, mas são condescendentes com o “rapaz” (e condescendência é um sentimento tão bonito...).

Por fim, há um pequeno grupo, gente dada à paz, à meditação e ao gosto por ser diferente, que não acha bem nem mal, antes pelo contrário, mas, caso ache alguma coisa, descobre que a culpa disto é toda dos arquitectos – elitistas, cheios de si e que não pensam a cidade - uns incompetentes.

Euzinha estou confusa, porque ainda não percebi qual deva ser o meu grupo: não sou dada à meditação, não tenho marquise mas reconheço que em dias de vento pode dar jeito, tendo a defender os pobres mas adorava ser rica mesmo que possidónia,

Há situações mesmo lixadas, covenhamos.

14
Jun21

Clássico é

Maria J. Lourinho

“O clássico ultrapassa os limites temporais, retém um significado para as épocas vindouras, vive. Emerge, ileso, do processo de ser posto à prova dia após dia.

Embora atravesse épocas obscuras, a sua continuidade não se quebra. Ultrapassa mudanças históricas, até sobrevive ao beijo da morte da sua consagração por parte de fascismos e ditaduras.

Algo continua a impressionar-nos nos filmes propagandísticos de Eisenstein para os comunistas soviéticos, ou nos de Leni Riefenstahl para os nazis.”

Irene Vallejo

O Infinito num Junco

E se isto é verdadeiro para filmes, livros, ballet, etc., não o é menos para um conjuntinho Chanel. 

Este pequeno excerto que escolhi quase não tem que ver com o livro citado, mas gostei dele. Sobre o livro propriamente, O Infinito num Junco, de que a minha amiga Helena tanto gostou, eu posso dizer que apenas gostei.

É um hino ao livro, às bibliotecas, e um documento importante que faz a história de ambos, enquanto nos leva numa viagem ao passado, ao nosso passado comum, revisitando gregos, romanos e o grande Alexandre.

Porém, encontro no livro o defeito que encontro em quase todos os livros e autores espanhóis – é palavroso, demasiado longo, o que o faz, em alguns momentos, chato.

Mas eu sou a tal que acha sempre que menos é mais.

 

13
Jun21

Suplemento alimentar V

Maria J. Lourinho

Tate (2) (1).jpg

A obra do artista Shonibare (nascido na Nigéria e a viver no Reino Unido), intitulada “Biblioteca Britânica”, celebra a diversidade da população britânica. Impresso em alguns dos 6.328 livros da instalação estão os nomes de imigrantes de primeira ou segunda geração na Grã-Bretanha, tanto célebres quanto menos conhecidos, marcando as suas contribuições significativas para a cultura e história britânicas. Entre nomes como Zadie Smith, Winston Churchill, Dame Helen Mirren e Hans Holbein, também aparecem os nomes de alguns dos que se opuseram à imigração. A biblioteca é um espaço para debater e refletir sobre todos os aspectos da história da Grã-Bretanha.”

Imagem e texto (traduzido) da página da galeria Tate Modern no Instagram

11
Jun21

Helena

Maria J. Lourinho

Eu tenho uma amiga que se chama Helena.

Nunca a vi, mas há anos que nos acompanhamos nas redes sociais.

Também praticamente não sei nada dela; sei que vive entre dois países, que gosta de livros (como eu) que gosta de viajar (como eu), que tem pelo menos uma neta que adora e acompanha quanto pode.

A Helena gosta do que eu escrevo e incita-me a fazê-lo. Há poucos meses, a Helena descreveu-me com um sentido de observação e uma generosidade de que, creio, mais ninguém foi capaz até hoje. É perspicaz, inteligente, ponderada, tolerante. Quando eu não sou ponderada e tolerante, a Helena não gosta, mas releva porque é minha amiga.

É maravilhoso saber que, para lá do monitor está alguém por quem nutrimos uma genuína amizade e que esta é retribuída.

Se for alguém que não conhecemos, é quase mágico.

A Helena faz hoje anos. Não sei quantos, mas não faz mal. Eu quero que ela faça muitos e que permaneça assim comigo, e eu com ela.

Parabéns, Helena, e obrigada pela amizade. E por estar aí, onde quer que seja.

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