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Última Paragem

O blog do bicho do mato

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Última Paragem

30
Abr21

Coisas sábias

Maria J. Lourinho

Frederico Lourenço em entrevista a Anabela Mota Ribeiro 2014

 

Tem algum verso de que goste muito?

Há um verso da Ilíada que é dos mais importantes da minha vida. Aparece duas vezes, diz o seguinte: “A estas coisas permitiremos o terem sido”. Aquiles olha para trás, para as coisas que estão para trás na vida dele, depois de as enumerar.

 

É uma forma de dizer...

Vou aceitar que o passado existiu desta forma, não vou entrar em luta com o que foi o passado, vou centrar-me no agora e no futuro. Esse verso é de uma profundidade espantosa. Não é óbvio. Muitas vezes estamos ainda a lutar com os anos que já passaram. Estamos a tentar entendê-los.

 

A fazer as pazes.

Sim. Chegar a esse ponto, de permitir que o passado tenha sido assim, é de absoluta lucidez.

 

28
Abr21

Uma manhã portuguesa

Maria J. Lourinho

Estava sol. Saí de casa, fiz a minha caminhada, e no fim dirigi-me à farmácia. Ontem, tinha lá estado a aviar uma receita mas, coisa muito frequente hoje em dia, faltava um medicamento.

Como de costume, leva amanhã, pode ser? pode, mas pago já tudo. Calhou-me ontem o velho farmacêutico, que tem no computador um inimigo figadal, e que pediu para só pagar no acto da entrega. Disse que sim, mas hoje, no acto da entrega, eu precisava de apresentar de novo a receita. Era preciso voltar a casa.

Fiquei irritada.

Segui para os correios onde comprei um pequeno envelope almofadado pelo qual paguei 3,10€. Achei caríssimo mas a senhora, ainda assim, resolveu avançou com a tentativa de me vender lotaria. Era persistente. Melhor seria ter tentado uma carreira de vendedora do que de funcionária dos CTT . Não gosto que me impinjam coisas.

Fiquei indignada.

Fui, então, fazer umas chaves.

Dessas eu não faço, só o meu marido, e ele só vem daqui por meia hora e às 11 horas temos de fechar para ir a um funeral.

Esperei, mas fiquei agastada.

Para matar o tempo, entrei na livraria do centro comercial da porta ao lado. Encontrei-me então a navegar no meio de dezenas de títulos em que surgem palavras como alimentação, meditação, sucesso, bem-estar, reiki, cura, dieta, anjos, numeralogia, Karma, auto-hipnose, leitura das mãos, pêndulo, Tarot, iluminação, sonhos, florais de Bach, milagres, revelação.

Fiquei nauseada.

Feitas as chaves, e pagos 10 euros por cada uma, e olhe que é barato, se for ali à frente paga 18, com certeza, muito obrigada, chego a casa e uma não abre.

Fiquei piursa.

Sempre tenho muito mau feitio, caramba.

26
Abr21

Um dia depois

Maria J. Lourinho

Os anos vão passando e já lá vão 47 desde Abril de 1974.

Apesar da idade, ano após ano, sinto e vejo que o 25 de Abril continua vivo no coração de muitíssimos portugueses de todas as idades.

E isso é tão aconchegante para o espírito  como deitar o corpo numa cama fofa e limpa no fim de um dia difícil e desesperançoso.

PS: Cereja em cima do bolo - cá em casa pediram-me que medisse a febre quando, ao almoço, me ouviram dizer que o Marcelo fez um excelente discurso. Mas é que fez mesmo!

Foi um dia bom. Que venham muitos. Sempre!

24
Abr21

Redes sociais

Maria J. Lourinho

Há dez anos que frequento redes sociais. Não é muito, mas dá para tirar algumas conclusões:

1 - O Facebook é um clube para maiores de 50 em que quase todos têm opinião sobre tudo e quase todos não têm opinião sobre nada.

2 - O Twitter é um clube para maiores de 40 em que o único objectivo é ver quem consegue ser mais bruto.

3 - O Instagram é para quem só quer ver os bonecos.

 

22
Abr21

A rainha

Maria J. Lourinho

Não costumo ler revistas da especialidade mas sei ler fotografias.

Sou capaz de sentir a dor daquela mulher que, por acaso, é rainha de Inglaterra.

Será grande a tristeza pela perda dum marido de tantos anos, mas dor, dor mesmo a sério, foi a saída intempestiva, e para bem longe, dum neto adorado.

O neto que a fazia rir, o que contava anedotas e dizia piadas, o que se metia com ela brincando, o que não tinha medo nem reverência excessiva, o que a amava como se ama uma avó, o que trazia a vida em toda a sua pujança para dentro do mausoléu de Buckingham.

Posso não saber muitas coisas, mas isto sei.

21
Abr21

Uma bela história, não interessa se verdadeira ou não.

Maria J. Lourinho

"Umberto Eco conta que, quando andava na Universidade de Turim, via todas as peças de teatro, as clássicas e as contemporâneas, no edifício municipal, entrando praticamente sem pagar.
No entanto, como estava na residência universitária tinha de regressar a tempo de o deixarem entrar — a residência fechava cedo — e por isso nunca via os últimos quinze minutos das peças.
Nunca sabia, então, como terminavam as grandes peças contemporâneas.
Umberto Eco conta que, tempos mais tarde, fez amizade com Paolo Fabbri, um outro estudante, que “para ganhar algum dinheiro” trabalhava no teatro, a controlar as entradas e os bilhetes, e que, por isso, nunca via os primeiros quinze minutos das peças.
Assim, conta Eco, a certa altura, ele contava o início das peças a Paolo e Paolo descrevia-lhe os finais das peças.
Ficavam a saber o que acontecia pela narração do outro.
Uma bela história, não interessa se verdadeira ou não."

Gonçalo M. Tavares

Revista E, 16/04/2021

 

 

 

20
Abr21

Vida

Maria J. Lourinho

Ontem, quando fiz o telefonema diário para a minha nonagenária mãe, ela tinha recebido a visita da sua amiga G. igualmente quase nonagenária e igualmente já com a vacina completa.

Juro que o que ouvi do outro lado se assemelhava bastante ao som de uma tardada de convívio de adolescentes.

Há um ano, nem ainda sonhávamos que isso fosse possível.

Temos de começar a pensar em levantar, pelo mundo fora, muitos monumentos ao cientista desconhecido.

Obrigada a tantos.

19
Abr21

O Lopes (Short story)

Maria J. Lourinho

Era o final dos anos 1960, e o regime político vigente - a ditadura, tinha resolvido dar um ar de sua graça, anunciando eleições legislativas com a participação da oposição.

Todos os que já antes davam ao seu contributo para o fim do regime e a instauração da democracia se organizaram para concorrer às eleições de 1969.

Eram homem e mulheres de várias orientações políticas. Mais tarde, uns afirmara-se comunistas, outros socialistas, outros sociais democratas, outros católicos progressistas, mas ali, naquele tempo, as tendências individuais não eram importantes.

Importante era a militância em prol da democracia, e o espírito de corpo.

Juntos viveram semanas de convívio intenso e cheio da adrenalina que o perigo e o medo produzem.

O Lopes integrava o grupo. Não tinha ainda profissão definida, nem estudos que se vissem, mas era empenhado e corajoso. Estaria nos seus vinte e poucos anos.

Margarida também integrava o grupo. Mais nova e mais desembaraçada.

Como se esperava, as eleições estavam viciadas, a oposição democrática foi derrotada e cada um voltou à sua vida.

Trinta anos depois, estava Margarida a presidir a uma mesa de voto quando, ao olhar para o próximo votante, não o reconheceu, mas ouviu-o, ao abeirar-se da mesa dizer alto e bom som:

- Margarida!!! Há quantos anos não te via! E a paixão que eu tive por ti, mulher! Nem tu sonhas!

A sala silenciou, e todas as cabeças se viraram para ver quem seria que tinha a supimpa lata de, naquele lugar "solene", fazer uma declaração de amor tardia e tonitruante.

Uns sorriram, outros afivelaram a sorumbática máscara do respeitinho (estes últimos eram, decerto, os que nunca tiveram a sorte de conhecer uma paixão.)

Margarida também sorriu, cumprimentou, e disse alto o nome do eleitor para que os escrutinadores o descarregassem nos dois cadernos eleitorais.

Era o Lopes.

Logo depois do voto depositado na urna, como era inevitável, e sem surpresas de fim de história, de novo cada um voltou à sua vida.

 

17
Abr21

Capítulos

Maria J. Lourinho

É um lugar-comum dizer-se que a vida tem capítulos, mas tem, como os livros; em ambos os casos, para entendermos o capítulo que começa precisamos de ter lido o anterior.

Na juventude, este movimento de abrir e fechar capítulos é-nos quase imperceptível - temos pressa de realizações e muitos objectivos para alcançar.

Quando, porém, a bagagem de cada um já se acumulou, a perspectiva muda e, ao encararmos a inevitabilidade de mais um fim de capítulo, já não nos é estranha a sensação do olhar que se turva com uma fina lente de nostalgia.

Como dizia Mick Jagger numa entrevista, “recordar é muito exigente a nível emocional. Exige reviver muitas emoções, reviver amizades, reviver altos e baixos; é aborrecido e perturbador”, e por isso desistiu de escrever as suas memória.

Tem razão.

Carrego bagagem suficiente para, também eu, de cada vez que alguma coisa chega ao fim e urge que a desfaçamos, sempre seja tomada pela emoção de reviver outros fins, e entre eles os mais difíceis – a morte do pai, e a saída de casa do último filho.

São momentos exigentes e perturbadores, sim. Neles, a nostalgia chega a ficar tão densa que talvez devesse mudar de nome. Mas não sei para qual.

... la nave va.



15
Abr21

Saúde mental

Maria J. Lourinho

Agora que o país voltou a falar de Sócrates todos os dias, e até a ouvi-lo falar, espanta-me muito que as pessoas continuem sem perceber que ali está um caso do foro psiquiátrico. Pode merecer a prisão, mas na ala psiquiátrica.

E sobre saúde mental, apeteceu-me repescar este texto que escrevi há uns anos.

 

Ainda gosto de a recordar menina.
Baixinha, viva, olhos verdes e míopes, vaidosa, leitora compulsiva, parecia uma bailarina de caixa de música posta a tocar para que mostrasse graciosas habilidades.
O auditório familiar sonhava sonhos grandes para ela, menina com brilho extra, leitora precoce de Althusser e Rosa Luxemburgo.

Quando, adolescente, sobreveio o breackdown, e que raio seria isso, foi como uma bala no meio do peito do embevecido público. Havia de passar, havia de se curar.

O tapete vermelho passou a rampa de perigoso ângulo, resvalando para as alucinações, o real imaginário, os imprevisíveis humores, a esquizofrenia.
Como se um espírito mau tivesse puxado o fio do tricô tão laboriosamente tricotado, este começou a desfazer-se em brigas de amor-ódio, agressões verbais, fugas, relações cada vez mais perigosas com a vida, e lenta implosão familiar.

Nos dias bons, parodiava-se a normalidade, nos dias maus encetavam-se buscas ansiosas em pensões sórdidas da Baixa onde nunca estava só, e nem sequer aparecia, mas mandava recado, dizendo que ainda não era tempo de voltar para casa. Iniciava-se então o regresso, com uma dor que não devia ser permitida a nenhuma menina, para informar que parecia que sim, que estava viva, mas não se sabia dizer quanto.

Havia de passar, havia de se curar. E o plano inclinado cada vez mais íngreme, escorregadio e imprevisível.

Mas ainda gosto de a recordar menina.

14
Abr21

Leituras VI

Maria J. Lourinho

Sobre a solidão na parte do mundo que é rica

"Tem sido notícia de jornal pelo mundo fora. O japonês Shoji Morimoto, de 37 anos, formado em Física, aluga-se a si próprio para não fazer nada, apenas proporcionando companhia. Depois de passar por vários empregos terá concluído que esse era o seu único e autêntico talento e a verdade é que tem angariado milhares de clientes nos últimos tempos.

Tudo começou quando comunicou nas redes sociais que, por cerca de 77 euros por encontro, não faria nada na companhia de quem o contratasse, a não ser comer, beber e dar respostas simples às interpelações. Já agora, a comida, bebida e transportes são por conta dos clientes. Solicitações não lhe faltam. Recentemente contava à BBC que as mais comuns são para acompanhar quem não quer ir sozinho às compras de supermercado ou quem não deseja comer só. Mas também existe quem o queira para ir ao hospital ou, mais insólito, como companhia para assinar os papéis de divórcio. Dir-se-á que tal só é possível num país que acaba de criar o Ministério da Solidão, mas não parece. As sociedades contemporâneas são máquinas de produção de isolamento e a pandemia só o intensificou."

Excerto do artigo de Vítor Belanciano

Público 11 Abril 2021

13
Abr21

A ministra sueca

Maria J. Lourinho

Há dias, a Ministra das Finanças sueca deu ao Público uma entrevista sobre o regime fiscal dos suecos que vivem em Portugal e que não pagam IRS em nenhum dos dois países, ou pagam pouco.

Dizia a ministra:

Se um doente sueco e um doente português estiverem lado a lado num hospital [em Portugal], o português pagou impostos pelos dois, porque os suecos têm todos os direitos — cuidados de saúde, transportes públicos —, mas não pagam impostos.”

Apetecia-me responder à ministra que, apesar de considerar este regime imoral, o que ela diz é apenas uma meia verdade, porque o sueco pagou aqui alguns impostos por via dos gastos feitos com a sua recheada carteira, o que sempre nos dá muito jeito.

Mas gostava também de lhe dizer que a cena do sueco caído no hospital público português é pura ficção. A acontecer, o homem fugiria rapidamente para um hospital privado ao ver-se rodeado de tantos velhos portugueses sem dentes, carcomidos por anos de trabalho e exploração desenfreada, pouca instrução e que, tal como ele, sueco, também nunca pagaram IRS, mas por via dos seus muito baixos rendimentos.

Seria uma enfermaria cheia de gente que não paga IRS.

Porém, senhora ministra, se nem o seu sueco milionário nem os nossos velhos pobres, pagam IRS, nem mesmo assim nós os deixámos morrer durante a pandemia, ao contrário do seu civilizado e rico país, que os deixou morrer aos milhares, convencido que esse era o modo mais rápido e barato de atingir a imunidade de grupo.

O referido regime fiscal é, de facto, iníquo, mas sabe, senhora ministra, os pobres às vezes, para comerem, têm que saltar o muro e roubar fruta.

E os vossos discursos, cheios superioridade moral mal disfarçada, já não colhem, nesta nossa Europa de egoísmos individuais e do salve-se quem puder.

É um verdade triste, mas é assim.

 

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