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Última Paragem

O blog do bicho do mato

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Última Paragem

30
Mar21

O que Resta da Nossa Vida, Zeruya Shalev

Maria J. Lourinho

Zeruya_Shalev (1).jpg

O começo não foi fácil. O livro todo também não é fácil.

A narrativa começa quando o elemento mais velho de entre os personagens, a mãe, cai e fica confinada à cama. É então que entramos na família com a história pessoal desta mãe e dos seus dois filhos - uma mulher, mais velha, sempre insuficientemente amada pela mãe, e um homem, mais novo, por ela adorado.

O centro de todo o romance é a procura do amor, por parte de quem o recebeu cheio de entorses, ou não o recebeu de todo. A aprendizagem dos afectos não foi feita em casa, e muito menos no kibutz; será, por isso, feita a custo por cada um individualmente e, por fim, colectivamente.

Nesta busca, os personagens estão tão ávidos de receber como de dar, mas o seu caminho é duro, errático, com laivos de loucura na procura dessa coisa simples mas essencial, que parece fácil mas que não o é de todo – amar e ser amado.

Na construção do romance, as vozes e os tempos cruzam-se. Ao leitor é pedida grande concentração embora, depois de lhe apanharmos o "jeito", nos entreguemos com prazer à narrativa daquelas vidas que na sua aflição e humanidade tanto nos agarram como nos sacodem.

Zeruya Shalev é uma escritora israelita, autora de cinco romances, traduzida em 25 línguas, com inúmeras distinções e prémios.

29
Mar21

Saudade dos cafés com gente

Maria J. Lourinho

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"Os cafés são uma versão moderna da ágora grega. Locais onde se misturam trabalho e lazer, onde nos entregamos a certas rotinas, a certa preguiça, a certa reflexão, e onde podemos ler, discutir, e depois escrever. Isto nem sempre existe nas cidades de hoje, com o ritmo de hoje."

"O mundo pode caber inteiro num café. Não um pseudo-café, exclusivo, para pares. Não é isso. Um café de verdade, para casais e solitários, artistas com muito ou pouco génio, escritores em angústias criativas, estudantes em exames ou em desamores, bebedores de cerveja ou de vinho, conversadores ou contemplativos. Um café em L, com mesas de mármore sobre pés de ferro a acabar em patas de leão.

Claudio Magris, a propósiro do seu livro Danúbio .

E , sobre cafés, George Steiner escreveu também:

"Enquanto existirem cafetarias, a ideia de Europa terá conteúdo".

 "A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrado, aos balcões de Palermo."

 

 

 

27
Mar21

Da memória

Maria J. Lourinho

O meu quintal tinha pretensões a jardim.

Tinha relva, que não era grama mas escalracho, um canteiro comprido que no inverno dava jarros e no verão sardinheiras, uma sebe feita com escalónia, uma laranjeira e um limoeiro; a grande primenteira do vizinho, que no verão derramava na relva uma sombra generosa e benfazeja, também era, de facto, minha.

Nas noites de canícula e silêncio, depois de os pássaros se acomodarem para dormir, podia ouvir os insectos e ver um monte de estrelas de que nunca soube o nome.

25
Mar21

Ramon (Short story)

Maria J. Lourinho

Mediano. Tudo nele era mediano. Nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem bonito nem feio, Ramon era, se calhar, banal.

O amor que dedicava a pai e mãe, mulher e filhos, era comedido, digamos que, nem quente nem frio.

Comia pouco, falava pouco e o humor também variava pouco.

Alheio a qualquer misticismo, não acreditava nem deixava de acreditar, não rezava, mas nos “apertos” era capaz de “pedir a Deus”.

Dormia bem e não se lembrava de sonhar, a não ser quando tinha aquele sonho recorrente, que não sabia de onde lhe vinha, visto ter nascido no interior e só tarde ter visto o mar, em que se via náufrago e sozinho no meio do oceano. E nem tinha lido “Retrato de um Náufrago” de Garcia Marquez, garanto eu. Mas, felizmente, o sonho também não o agastava.

Não lia jornais mas via os noticiários na televisão. Nunca exprimia opiniões políticas. Mudava de roupa dia sim dia não, e engraxava os sapatos ao domingo de manhã. Uma vez por ano, ia ao dentista e controlava a próstata.

Burocrata sem angústias nem paixões, cumpria os horários atribuídos e as tarefas pedidas, era pontual à entrada e à saída.

Os dias faziam-se por entre papéis, computador, telefone, clientes e colegas, que não amigos.

Acordar, barbear, tomar banho, dejejum; um beijo distraído à mulher e um automático “até logo”.

À sua maneira, parecia feliz. E banal. E mediano.

Num dia frio e ensolarado, pouco antes do Natal, cumpridas todas as rotinas matinais, Ramon meteu-se no carro e fez o caminho pela estrada da costa. Frente ao mar, estacionou e desceu à praia.

Descalçou os sapatos, meteu neles a chave do carro e desapareceu.

Houve buscas, mas Ramon não colaborou.

E então? então... gosto de finais abertos. 

 

24
Mar21

Crescer sem livros

Maria J. Lourinho

” a tribo chama por ele (o rapazinho) sem parar, na lição de judo ou de viola, no clube de teatro e até na biblioteca! A experiência da solidão, do olhar fixado na janela por cima dos telhados, a experiência dessa tão estranha e doce tristeza que se esconde no fundo de cada livro como uma luz feita de sombras, essa experiência fundamental que é, afinal, a iniciação ao mundo e à finitude, essa experiência é quase impossível, proibida, até.”

Michel Crépu

"Esse vício ainda impune"

22
Mar21

O vírus e o amor

Maria J. Lourinho

No sábado, li que houve manifestações anticonfinamento e antivacinas em várias cidades da Europa. O Observador referia que milhares de suíços protestaram contras as restrições impostas para conter a pandemia e que nos seus cartazes podia ler-se coisas tão extraordinárias como:

“Chega!”, “Vacinas matam” ou, a minha preferida, “Que o amor seja o vosso guia, não o medo”.

Eu, que sou uma mocita um nadinha impaciente com a estupidez, se mandasse, aconselhava-os de borla - armazenam muito amor, guardem-no em pipas, silos, garrafões ou frasquinhos de essências, e curem-se com ele porque, na hora em que recusarem a vacina, serão obrigados a assinar termo de responsabilidade em como desistem dela mas, em simultâneo, desistem também de qualquer tratamento em caso de se infectarem com coronavirus.

Este amor labrego anda à solta em toda a parte, como o vírus.

Sorte a deles que eu não mando nada.

20
Mar21

Chegou hoje às 6h38

Maria J. Lourinho

David Hockney (1).jpg

David Hockney

The arrival of spring, iPad painting

Realizada na primavera de 2020, durante um período de intensa atividade em sua casa na Normandia, esta exposição traça o desenrolar da primavera, do início ao fim, e é uma alegre celebração das estações. Com abertura exatamente um ano após as obras terem sido feitas durante a pandemia global, esta exposição será um lembrete da constante renovação e maravilha do mundo natural - e da beleza da primavera.

27 March — 22 August 2021, Royal Academy of Arts

(não vendo bilhetes, mas gostava)

 

19
Mar21

Pai

Maria J. Lourinho

Dia do pai.jpg

Não frequento igrejas nem cemitérios; não acredito em vida depois da morte mas, na minha mitologia dos lugares, é aqui que o encontro, quando tento "ouvir"o que me diria, que resposta daria às minhas interrogações - num lodão de grande porte, generoso, disponível, protector.

Bom dia, pai.

18
Mar21

Memória dos corpos tangíveis

Maria J. Lourinho

O elevador do hotel da praia era uma espécie de Arca de Noé dos tempos modernos.

Sobe que sobe, desce que desce”, sempre carregando gente no bojo, mas também tralhas, aromas e estados de alma

Pela manhã, o elevador transportava restos de sono e sonhos, vestidos de calção, t-shirt e sandálias. Geralmente não tinha cheiro, mas podia pairar no ar um leve aroma a sabonete de hotel.

Ao longo de todas as horas do dia, amontoava homens, mulheres, velhos, novos, crianças de todos os tamanhos, mas também sacos de praia a abarrotar de “coisas”, toalhas, sombrinhas, cadeiras, colchões, carrinhos de bebé, cadeiras de rodas, baldes, pás, chapéus.

Enfeitava-se de fato de banho ou biquíni, saída de praia, óculos de sol e chinela no pé.

Cheirava a sal e sol, a protector solar e a suor.

Levava sempre muitos, apertadinhos uns contra os outros; quase se podia apalpar a claustrofobia, o mal-estar ansioso, o desagrado pela excessiva proximidade de corpos estranhos, a sufocante ausência de espaço vital, o cansaço e o silêncio.

Ao pôr-do-sol, o elevador descia já lavado de água doce; jovens de cabelo ainda molhado, senhoras bem penteadas (como o conseguiriam?).

No ar misturavam-se aromas de todas as águas-de-colónia da moda, e vestia-se com vontade de parecer bem.

De noite, voltava a subir, e a cheirar de novo a sono e sonhos, mas também a sexo, álcool, erva, azia e escaldão.

Por umas horas, descansava, para ao alvorecer recomeçar o seu interminável “sobe que sobe, desce que desce”, cheio de corpos estranhos mas, ainda assim, tangíveis. Outros tempos.

17
Mar21

Sonhar o futuro

Maria J. Lourinho

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"Pete Buttigieg é o secretário de Transportes da Administração Biden. Há poucos dias Buttigieg publicou no Twitter uma imagem que começou a correr há dois anos principalmente entre os apoiantes de Sanders: um mapa com a maioria dos 48 Estados contíguos dos EUA interligados por uma rede de linhas de alta velocidade em que as grandes cidades norte-americanas aparecem, de Nova Iorque a Los Angeles, como se fossem meras estações de uma linha de metro. A geração pós-millenial, dizia, está a “sonhar em grande, e todos devíamos fazer o mesmo”.

Do artigo de Rui Tavares no Público

Nós por cá, continuamos a discutir um novo aeroporto. Quantas linhas e comboios de alta velocidade conseguríamos pelo mesmo preço?

15
Mar21

Vacinação

Maria J. Lourinho

Quando foi anunciado o plano de vacinação, percebi que , dada a patologia que me acompanha, seria vacinada no primeiro grupo, logo depois dos profissionais de saúde. Não achei bem nem mal, era assim e pronto, alguém teria estudado o assunto.

Nem sei quantas alterações o plano já sofreu. Primeiro decidiu-se que era preciso “salvar vidas”, como disse o senhor da tropa, e deu-se prioridade aos maiores de 80, depois foram as forças de segurança, e agora as escolas.

Juro, mas juro mesmo que, exceptuando as forças de segurança, acho bem, muito bem.

A comunidade escolar precisa de voltar ao trabalho, sem mais quebras, com confiança e tranquilidade. E dos nossos mais velhos, nem se fala.

Juro, mas juro mesmo, que a única coisa que me chateia no meio disto, é a nossa eterna incapacidade de planear – para desenrascar não há melhor que nós, mas para planear somos uma calamidade.

O meu país, no que exige planeamento, continua a andar aos ziguezagues, avanços e recuos, ao sabor, quantas vezes, das poderosas corporações e grupos de pressão.

É uma lástima, mas o meu país continua a não ser confiável.

13
Mar21

Sueli (short story)

Maria J. Lourinho

Sueli olhava sem ver a chuva miúda que caía na praceta, enquanto com as mãos, pode dizer-se, quase abraçava uma chávena de chá.

Não era ainda velha, nem ainda nova, mas tinha acumulado anos suficientes para chegar àquela etapa da vida em que é recorrente evocar acontecimentos passados e pessoas que se perderam ou se foram perdendo.

E voltava sempre a Isabel.

Na juventude, quantas horas de estudo e lazer em conjunto, em esplanadas e cafés; quantas viagens de autocarro e de comboio, milhões de palavras, gargalhadas, os poemas queridos da juventude, as confidências de amores falhados e sucedidos.

Havia nela uma disponibilidade amável para os outros. A gargalhada era franca e fácil, mas em Isabel predominava a melancolia.

Sempre a tinha ouvido falar num grande amor, o único, mas Sueli nunca o viu!

Dava a entender uma certa clandestinidade nesse namoro, coisa de família, dizia, mas nunca um pormenor dum encontro, do onde ou do como, nunca um dia de felicidade total, daquela que toda a gente entende de onde vem, nunca a confidência de um beijo trocado no vão da escada ou à torreira do sol.

Tinha outras amigas de que falava mas que nunca mostrou, parecia conhecer muita gente mas aparecia sempre sozinha.

Só tarde na vida Sueli percebeu como tudo isto era, no mínimo, curioso.

Quando a vida profissional ditou as suas regras, nem assim o contacto se quebrou.

Sueli criou família; Isabel manteve-se solteira.

Chegou o dia em que Isabel falhou o encontro marcado na véspera com o (aparente) entusiasmo de sempre.

Inúmeros telefonemas e cartas depois, que sempre esbarraram num inamovível silêncio, colhendo também informações que diziam que Isabel estava bem, instalou-se em Sueli uma tristeza raivosa, no meio da qual percebeu que a amiga certinha, católica, inatamente melancólica e um pouco triste lhe tinha desaparecido para sempre.

 

Uma sucessão de acontecimentos miúdos, espalhados nos anos, que Sueli laboriosamente colou como relíquia de porcelana quebrada, permitiu-lhe a convicção, toda feita de intuição , mas nem por isso menos profunda, de que Isabel desapareceu porque se apaixonou, e essa paixão trazia consigo, nas entranhas, uma funesta traição.

Tinha parado de chover, e a chávena vazia de chá já lhe estava a arrefecer as mãos.

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