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Última Paragem

O blog do bicho do mato

O blog do bicho do mato

Última Paragem

30
Jan21

Bondade

Maria J. Lourinho

Hoje, e não por acaso, lembrei-me desta palavra.

bon·da·de
nome feminino

1. Disposição natural que nos leva a fazer bem e nunca mal. 2. Qualidade do que é bom. 3. Boa índole. 4. Benevolência

"bondade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Eu diria antes: palavra caída em desuso, quer no significado, quer no significante. Usá-la no discurso corrente tornou-se quase kitsch. Ninguém fala em bondade, e raros são os que a vivenciam espontaneamente.

Porém, não me lembro de um tempo em que a (qualidade) bondade, com o seu poder transformador, fosse tão necessária aos homens.

29
Jan21

Com os meus botões

Maria J. Lourinho

Antes, víamos a dra. Graça Feitas todos os dias. Agora, que a situação é dramática, não a vemos nunca, até parece que o país não tem Director Geral de Saúde.

Antes, ninguém falou em vacinar nem sequer o PR ou o PM. Agora, de repente, há 1000 (mil) titulares de cargos públicos imprescindíveis a precisarem de vacina urgente.

Este país deve ser bipolar.

28
Jan21

Viagens que a viagem contém

Maria J. Lourinho

“...Tinha descoberto capacidades e forças que nunca teria imaginado possíveis naqueles tempos, quiméricos e distantes, anteriores à viagem.

Tinha redescoberto pessoas no meu passado e chegado a uma conclusão quanto aos meus sentimentos para com elas. Tinha aprendido o que era o amor. Que o amor significava desejar tudo de bom para aqueles de quem gostávamos, mesmo que isso nos excluísse a nós próprios.

Tinha aprendido que, anteriormente, desejava ser dona das pessoas sem as amar, e que agora podia amá-las e desejar-lhes o melhor possível, sem precisar delas.

Tinha entendido o que era a liberdade e a segurança e que havia necessidade de abanar os alicerces do hábito. Que para sermos livres precisamos duma vigilância constante e inflexível sobre as nossas fraquezas.

...

ficar indiferente às seduções da segurança é uma luta impossível, mas uma das poucas que valem a pena. Ser livre é aprender, pormo-nos constantemente à prova, apostar. Não é seguro.”

 

Trilhos

No deserto australiano com quatro camelos e um cão

Robyn Davidson

Quetzal Editores (1999)

26
Jan21

Dias de m€£&@

Maria J. Lourinho

Caminhar pela manhã é um hábito antigo.

Tinha chovido, ontem. No empedrado e no alcatrão acumulavam-se folhas, tronquinhos, água, lama e caca de cão.

Durante o anterior confinamento foi notório, tal como agora, que muitos donos e donas de cachorros deixam de apanhar os dejectos do seu animal.

Havendo menos gente na rua, devem cogitar (e bem), que podem soltar a trela, não do bicho, mas do porcalhão que há em si, porque ninguém está a ver

Assim, por estes dias, já não caminho; faço gincana entre cocós, que aumentam diariamente, o que também é expectável, sabendo nós que porcaria traz porcaria.

Mas o mesmo se passa com outras espécies execráveis, que não apenas a dos porcalhões. Por exemplo, com a dos grunhos - mal apareceu um na nossa “rua” logo foi seguido por meio milhão deles.

Sem fim à vista para a gincana, portanto. Dias de...

23
Jan21

Eleições

Maria J. Lourinho

Em véspera de eleições presidenciais, é desesperante a reiterada dispersão de votos à esquerda.

Todos nos alertam para a possibilidade de o candidato da direita boçal e cavernícola poder ficar em segundo lugar, mas nem isso consegue fazer com que as esquerdas parem de olhar para os respectivos umbigos e insistam em medir pilinhas. Quando a medição terminar, creio que todas vão ficar envergonhadas; mas quem mais perde, no fim de tudo, é o país e a democracia.

Na política, para desistir numas eleições é precisa uma de duas coisas: grandeza ou medo.

Grandeza não há, e o medo ainda não chegou. Mas, dado o caminho que seguimos, chegará na próxima vez.

22
Jan21

As crónicas de Ferrante

Maria J. Lourinho

Ferrante.jpg

A foto é minha mas pode levar

As crónicas que Elena Ferrante escreveu durante um ano a pedido do jornal inglês Guardian, reunidas no livro "A Invenção Ocasional" mostram que esta não é a categoria literária em que se sente confortável. Escritora de grande fôlego no romance ou no conto longo, a crónica parece ser para ela uma cela de prisão em que as suas "habilidades" definham.

E, se algumas ainda se lêem com agrado, noutras sente-se que foi penosa a necessidade de cumprir o contrato assinado.

Como sempre, nem tudo se perde, e eu retive uma boa sentença para pensar:

As crenças não são boas nem más, servem somente para dar uma ordem à desordem das nossas angústias

20
Jan21

Os Anos, Annie Ernaux

Maria J. Lourinho

Os anos.jpg

Depois de ter descoberto a escritora com o pequeno livro “Uma Paixão Simples” era urgente descobrir mais.

Os Anos (Edições Galimard, 2008 e Porto Editora, Livros do Brasil, 2020) em nada desiludem.

Annie Ernaux, leva-nos numa viagem desde o final da Segunda Guerra, anos 1940, até 2006. Não sei dizer se, através da história de França desse período nos conta a sua vida, ou se, pelo contrário, nos conta a sua vida através da História de França, de tal modo uma e outra se entrelaçam na escrita e se tornam uma só.

Mas se a História é a de França, a história da autora não é só dela – é de toda uma geração europeia que nasce com origens humildes mas que estuda e prospera, atingindo o estatuto duma classe média muitíssimo confortável.

Através de fotos, músicas, filmes, memórias de almoços familiares ou de momentos vividos, revivemos a caminhada de conquistas, tais como estudar na universidade, a legalização do aborto, Maio de 68, a eleição de Miterrand, mas também a guerra na Argélia, os atentados bombistas em Paris, o acelerar do tempo e do consumo, a chegada do mundo digital, a família e o amor.

Numa escrita particularmente honesta como esta, o livro não poderia terminar sem que a autora olhasse de frente o envelhecimento e a sua própria finitude.

Maravilhosa literatura.

18
Jan21

Isto

Maria J. Lourinho

Os OCS estão muito preocupados a contar as pessoas que caminham no paredão ou no jardim, ou as que sobem ou descem a Rua de Santa Catarina. Estas, porém, na sua larga maioria, cumprem. Estão ao ar livre, sozinhas ou com alguém com quem coabitam e evitam proximidade. Também há, é claro os que não cumprem, mas não é possível ter um polícia a vigiar cada português.

Quem não cumpre, é o Estado. Por falta de meios e de coragem para os encontrar. E a prova do que digo está aqui neste excerto que retirei do Público de ontem.

À porta do hospital em Loures:

Não sei como foi possível o meu pai apanhar covid. Ele nunca sai de casa.” Conversa como quem vai enganando a espera. “O meu pai está sempre em casa”, repete.

Se não sai, só pode ter sido a outra filha que trabalha e vive com ele na mesma casa onde reside um outro irmão doente, diz Idalina. Ela própria esteve com o pai na véspera – mas tem estado pouco. “Ontem só lhe fiz uma festa na cabeça quando fui vê-lo”, diz mostrando o gesto com as mãos.

Não está a pensar fazer o teste, nem sabe que, por precaução, devia fazê-lo e, por dever, devia manter-se em isolamento. Nem a irmã, que cuida do pai, se predispôs a fazer o teste. “Nós dissemos-lhe mas ela não vai fazer o teste. Não sei porquê, ela é que sabe.”.

Cabe ao Estado acompanhar não só os doentes mas também os seus contactos, como se sabe. Esse acompanhamento é ainda mais importante em meios mais pobres e desinformados, mas o Estado não está a conseguir fazê-lo.

Ora, contra isto, batatas. Resta-nos chorar os mortos e contar os que andam no paredão.

 

 

16
Jan21

A nossa vida

Maria J. Lourinho

"Sim, seremos esquecidos. É assim a vida, nada a fazer. O que hoje nos parece importante, sério, cheio de consequências, pois bem, um dia vai cair no esquecimento, vai deixar de ter importância. E o que é curioso é que não podemos saber hoje o que, um dia, vai ser considerado bom e importante ou medíocre e ridículo (…) Até pode acontecer que esta vida de agora, que tanto defendemos como nossa, venha um dia a ser considerada estranha, desconfortável, imbecil, não seja suficientemente inocente e, quem sabe, seja até condenável."

Anton Tchekhov

Epígrafe do livro Os Anos de Arnie Ernaux

 

14
Jan21

Odores

Maria J. Lourinho

Há muitos meses que a nossa vida na rua deixou de ter cheiros. É asséptica, sem densidade. E isso, parecendo pouco, é muito perturbador. Pelo menos para mim.

Lembro o livro “O Perfume” de Patrick Süskind, no qual o protagonista (assassino) é um homem sem cheiro mas de extraordinário olfato.

No livro, o autor escreve que "o odor é a essência, e o que não tem essência não existe”.

A vida sem máscara e, portanto, com odores, existe, nós é que já começamos a esquecê-los – erva húmida, flores, cozinhados, tabaco, gasolina, cocó de cão, fruta à porta da frutaria, perfumes de homem, perfumes de mulher, tintas, fumo de lareiras, por exemplo.

Comecei a ter muitas saudades.

 

11
Jan21

Melania, a Maria Antonieta do séc. XXI

Maria J. Lourinho

Ou, de outra maneira, the bitch

Na sexta-feira, a CNN noticiou que no meio de toda a violência e perigo, Melania fez uma sessão de fotos dos móveis e tapetes que restaurou na Casa Branca para um coffeetable book que está a escrever. Mas agora descobrimos que a equipe da Casa Branca implorou a Melania para interceder e forçar Trump a ir à TV e fazer os terroristas pararem. Melania é uma das poucas pessoas que restam neste país que tem alguma influência sobre Trump. Ela recusou-se até mesmo a falar com Trump sobre isso e começou a limpar uma jarra.

De acordo com o Daily Mail: O coração do governo dos EUA estava sob cerco, a nossa própria democracia estava em jogo, mas a Sra. Trump estava calmamente organizando estatuetas de porcelana para o fotógrafo ", continuou a fonte, dizendo que até mesmo os membros restantes da equipe Trump ficaram" pasmados "com suas acções. Na verdade, o conselheiro mais próximo da primeira-dama, a sua chefe de gabinete Stephanie Grisham, apresentou a sua demissão mais tarde naquele mesmo dia. Melania foi convidada a interceder, para forçar seu marido a criticar publicamente a insurgência, mas ela recusou.

-Ela não disse nada. Permaneceu em silêncio e continuou a limpar a jarra para a filmagem. Ela deixou esta presidência e seu casamento há muito tempo. Cada vez que pensamos que estas pessoas não nos podem surpreender mais, elas provam que de facto podem. Podem sempre piorar as coisas.

Traduzido do Twitter de Linda Girgis MD

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