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Última Paragem

O blog do bicho do mato

O blog do bicho do mato

Última Paragem

24
Set21

Zarapets

Maria J. Lourinho

zara-post.jpg

Ontem, ouvi num telejornal  que no Afeganistão 90% das pessoas passam fome.

Sabemos que por esse mundo fora serão muitos milhões, grande parte dos quais são crianças.

Porém, esta nossa parte do mundo, chamada ocidental e rica, encontra-se num processo rápido de degenerescência. Assim, também ontem, vi no Instagram a foto que reproduzo, da Zara, mais concretamente Zarapets, mais concretamente ainda, fatiotas para cães e gatos.

Insensibilidade social, decadência moral, inversão de valores, infantilização da vida, e estupidez (os animais não precisam de roupa), eis o que, assim de repente, me ocorre para caracterizar esta iniciativa Zara.

Enquanto me lembrar não porei os pezinhos em nenhuma loja da marca.

No ocidente, numa sociedade cada vez mais desigual e desumana, não fazemos filhos que dão trabalho, não queremos imigrantes para nos limpar as latrinas porque são um perigo para a nossa “civilização”, (mas também não queremos limpar as latrinas).

Ao contrário, queremos humanizar os animais e viver numa espécie de disneylândia ridícula, onde não cheire a pobre nem a cocó de criança, mas onde os pets vistam Zara, primeiro, e depois, quiçá Prada.

23
Set21

Uma historieta para a Sofia

Maria J. Lourinho

15 Abril 2017 (1).jpg

Sofia comentou ontem aqui que adorava os patinhos da Gulbenkian. Hoje, dedico-lhe esta brincadeira que escrevi em 2017 e publiquei no Facebook.

....

Não se distingue de qualquer outra das patas que habitam o jardim mais bonito da cidade. Porém, aquela parece ter tido a maior ninhada – dez ou onze patinhos, que fazem as delícias de quem por ali passa.

Claro que todos “sabem bem nada” e ontem, depois do matinal banho, a mãe pata tomou ares de sargento e caminhou com a pataria toda atrás, para destino ocultado dos passantes mas fácil de adivinhar; lembremo-nos da canção infantil: “quando estão cansados da água vão sair, depois em grandes filas pró ninho querem iiiiiiiir”.

Éramos três maduras a olhar a natureza, com aquele ar embevecido/apalermado de quem já deu para aquele peditório, tendo-nos ficado, para a vida, uma duradoura e arreigada capacidade de ternura e também de meter o bedelho onde não somos chamadas.

No meio da marcha, eis que um dos juniores tropeça, cai, e fica de barriga para o ar, debatendo-se para se virar. Sem sucesso.

A pata, que já nos tinha desaparecido da vista, deve ter chegado lá à frente, contou-os, e deu pela falta de um. Voltou atrás e começou as manobras para virar a cria, porém, com pouco jeito e nenhum sucesso. Farta, que isto de tomar conta de tantos filhos desespera qualquer uma, virou as costas e foi embora, certamente para chamar o 112.

É então que uma das maduras não resiste e vai virar o patinho.

Vinda não se sabe donde, a uma velocidade de Falcon 50, aparece a mãe pata, grasnando como uma louca, direitinha às nossas cabeças.

Era ver, então, no jardim mais bonito da cidade, as três maduras, quase histéricas, em fuga desordenada duma pata ensandecida e cega de ódio.

É tão linda a natureza, não é?!

15 Abril 2017

 

20
Set21

Sobre o negacionismo

Maria J. Lourinho

... "Mas há a prevenção. Primeiro, perceber que a regulação da informação não pode ser a mesma do século XX. Depois, reduzir a pressão a que estamos a submeter a comunidade. Assumir, como ouvi do pneumologista Agostinho Marques, que estamos a passar da pandemia para a endemia. Aceitar que, passada a fase aguda, viveremos com mais um vírus entre nós. Tirar as máscaras na rua, depois nos espaços fechados. Voltar a beijar e a abraçar, não aceitando um “novo normal” trágico para a nossa saúde mental, emocional e social. Prolongar o que não tem de ser prolongado é fabricar negacionistas. As manifestações de ódio, que noutros países perigam a vacinação, são o termostato a funcionar. Agora, concentremo-nos em vacinar as populações dos países pobres, de onde podem vir novas variantes. E regressemos à vida, para amenizar a fadiga que se manifesta em espasmos de loucura. Nuns casos, pela negação da evidência. Noutros, pelo medo paralisante, que não é mais saudável."

Daniel Oliveira, excerto do artigo no Expresso de 17 Set 2021

15
Set21

Pelintrices

Maria J. Lourinho

Herança de uma das minhas avós, tenho em casa um set de café em casquinha de que gosto muito. O bule, no verão, sofreu um acidente infantil e uma pequena peça da tampa soltou-se.

Ontem, finalmente, levei-o a uma ourivesaria que existe perto da minha casa, mesmo sem saber se teria oficina para arranjos.

Toquei à porta, que estava fechada (o que achei bem), lá dentro a senhora accionou o trinco eléctrico, e entrei. Ambas de máscara, mal demos o bom dia, eu comecei a tirar o bule do saco (nem terminei) e logo a senhora me diz:

Porta ao lado, a que fica mesmo à esquerda.

Lá fui. Toquei à outra porta e deparei com uma escada que levava ao primeiro andar.

Olhei para cima e li numa grande tabuleta

PENHORES

Ainda subi, na esperança de que também houvesse oficina, mas não.

Acho que nunca ninguém me chamou pelintra tão depressa e com tanta pinta!

14
Set21

Eu, a Graça e as máscaras

Maria J. Lourinho

A nossa Directora Geral de Saúde levou meses para nos dizer que usássemos máscara. 

Eu, que ouvia a sua conferência de imprensa diária, ali pelo meio-dia, nem sei quantas vezes a ouvi dizer:

" não vale a pena usarmos máscaras porque elas não nos protegem, só nos dão uma falsa sensação de segurança". Yes!

Não sei se o dizia por não haver máscaras no mercado, se por acreditar no que dizia. No segundo caso seria incompetência, porque o mundo já viveu outras pandemias que nos trouxeram saberes, no primeiro nem sei dizer o que seria. É certo que não havia máscaras no mercado, mas o discurso podia ser -  "tapar a boca e o nariz protege-nos a nós e aos outro; se não há máscaras, usemos um lenço ou um cachecol".

Agora, a situação mudou. Com a larga maioria da população vacinada, finalmente podemos tirar a máscara na rua, mas o tom usado é de quem nos dá um rebuçado lembrando sempre que o açúcar mata e que, por isso, é melhor não o comer.

Talvez por isso, o que vejo na rua nestes dois dias é exactamente o mesmo que antes, isto é, uns com máscara e outros sem ela, cada um fazendo conforme está mais de acordo com a sua maneira de viver e entender a situação.

Porém, é bom não esquecer que o uso sistemático da máscara nos retira também a possibilidade de criarmos imunidade e defesas para outras infecções.

Se não nascemos de máscara, por alguma razão será. Acho que até a doutora Graça sabe isso...

 

 

 

13
Set21

A Outra Metade, Brit Bennett

Maria J. Lourinho

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Badaladíssimo, este livro. A Alfaguara gastou, com certeza, uma boa quantia em publicidade nos jornais, sob a forma de artigos e entrevistas.

Não vou dizer que o livro é mau, nem por sombras , mas que não vale o arraial feito à sua volta, aqui e lá fora, não vale.

A história, que, diz-se,  não é novinha em folha, serve para nos lembrar, ou ensinar, que a raça não existe, mas o racismo, sim.

Serve também para falar de identidade, tema indispensável no século XXI, das nossas escolhas, da verdade e da mentira, de como tudo isso influencia a nossa vida, e também da busca da felicidade possível.

Então, o conteúdo é bom, mas a forma é só assim-assim, para meu gosto, é claro.

Fácil de ler, escrita fluida entre personagens, tempos e lugares.

Faz boa companhia durante umas horas, mas talvez não venha a ser um marco na nova literatura americana, como nos querem fazer crer.

PS: esta é só a minha opinião de leitora; não sou crítica de nada nem encartada em literatura.

10
Set21

Estrelas cadentes

Maria J. Lourinho

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Quem me conhece sabe que não encontro nada de interessante no envelhecimento e que os discursos laudatórios sobre ele me produzem um irritação profunda.

Um corpo que começa a falhar e que se torna um desconhecido, não só não tem graça como é assustador. Pior ainda é o envelhecimento da mente, quantas vezes tendo sido brilhante durante décadas para, sem aviso prévio, começar a parecer  uma estrela que vai morrer e deixar um buraco negro.

Vem isto a propósito da capa da revista Visão, que reproduzo, em que Miguel Sousa Tavares anuncia que vai abandonar o jornalismo. (Não li o artigo, não costumo ler a revista)

É uma boa decisão que só peca por tardia; quer-me parecer que leva, pelo menos, uns cinco anos de atraso, altura em que deixei de o ler e de o ouvir.

E se eu gostava dos seus textos no Público, julgo que à sexta-feira, tão bem escritos e reflectidos, sempre a acertar no alvo, assertivos mas não ofensivos.

Há uns anos, parou no tempo; tudo é mau hoje em dia, odeia, sem tentar entender, as redes sociais (que é o mesmo que odiar qualquer inevitabilidade, porque elas vieram para ficar), odeia professores, acredita que o ensino elitista que recebeu é que era bom, que os jovens são uns ignorantes, ama as touradas e, por ele, ainda hoje todos fumaríamos no espaço público  Alienado do país, ainda há pouco falou em jovens com um primeiro ordenado de 2700 euros. E são só exemplos. 

Se não tivesse nascido numa família “do contra” talvez fosse hoje um refinado reaccionário.

Vai-se passando algo de semelhante com Clara Ferreira Alves, tudóloga do Eixo do Mal, onde frequentemente aparece mal preparada, mas sempre snob e catastrofista – o mundo está mesmo, mesmo, a acabar e vocês não vêem nada, ó seus grandes estúpidos.

Que o Miguel pendure as botas, é mostra de uma réstia de lucidez. A Clarinha devia fazer o mesmo.

Com o definhamento intelectual destes dois é também um pouco de mim que definha, mas prefiro isso ao incómodo de assistir, semanalmente, à sua decadência, ao vivo e a cores.

 

06
Set21

Gilead

Maria J. Lourinho

livro 1 (2) (1).jpg

Gilead, de Marilynne Robinson (escritora favorita de Obama, ao que li) é um excelente livro para leitores sem pressa.

Com base numa carta que um pastor protestante, já septagenário, escreve ao seu filho (ainda uma criança), Robinson escreve um livro sensível, erudito, elegante e espiritual.

Lê-lo é confirmar que, a maioria de nós, nunca deve escrever nada além da lista de compras.

05
Set21

Sobre a dor

Maria J. Lourinho

"A dor ensina ou deve ensinar algo mas quem me dera que pudéssemos aprender de outra forma. No entanto, é impossível viver sem desgostos e, por isso, o que importa é adquirir sabedoria para lidar com o sofrimento que pode destruir-nos – conheço muita gente nessa situação. Creio ser importante a consciência da dor dos outros para podermos lidar melhor com a nossa. É importante que o desgosto nos sirva para olhar a dor dos outros de uma forma mais amável, mais compreensiva."

Resposta da escritora espanhola Rosa Montero a uma pergunta de Helena Vasconcelos, em entrevista publicada no jornal Público em 6 de Fevereiro de 2015, e que só hoje li.

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